Cardoso, Vicente Licinio

Ano de Nascimento: 1889
Ano de Falecimento: 1931
Nacionalidade: Brasileiro

Biografia Completa

Biografia

Vicente Licínio Cardoso nasceu na cidade do Rio de Janeiro no dia 3 de agosto de 1889, segundo filho de Licínio Atanásio Cardoso e Maria Cristina de Oliveira Cardoso. Seu pai era um homem com dupla formação, conseguida depois de um forte processo de ascensão social. Vindo de família pobre de Vila das Lavras, província de São Pedro do Rio Grande do Sul, logrou formar-se engenheiro na Escola Militar – onde depois ensinou Matemática – e professor de Mecânica Racional na Escola Politécnica desde 1887. Licínio Atanásio também se formou em Medicina em 1889. Na ocasião, defendeu tese sobre Homeopatia, sendo um dos introdutores dessa especialidade no Brasil.

A ascendência paterna marcou Vicente Licínio profundamente. Licínio Atanásio era um adepto ortodoxo do positivismo comteano, tendo inclusive se notabilizado por uma militância empenhada contra a matemática einsteiniana. Nessa perspectiva, empreendeu esforços para que a formação educacional do filho seguisse os cânones prescritos pelo filósofo francês. Após fazer o secundário no Externato do então Ginásio Nacional (Colégio Pedro II), onde entrou em 1901 e formou-se em 1906, Vicente Licínio prestou exames de admissão para a Politécnica em 1908, escola em que seu pai pontificava como mestre temido e pouco simpático aos olhos do alunado. Na perspectiva de Licínio Atanásio, a formação politécnica forneceria a base matemática e científica necessária para a consolidação de um espírito positivo. Quando se tornou professor da mesma instituição, Vicente Licínio iria repetir idéias semelhantes.

A Politécnica havia sido criada pelo decreto 5.600 de 25 de abril de 1874, responsabilizando-se pela formação de engenheiros civis de forma exclusiva no país até 1894. Os exames de seleção eram rigorosos, mas a formação politécnica caracterizava-se antes pela sua base matemática geral do que pela especialização profissional. Os registros disponíveis sobre a passagem de Vicente Licínio pela Escola indicam um comportamento semelhante ao do pai, avesso à frivolidade e compenetrado nos estudos. Tem-se aí um primeiro indício do papel do positivismo como instrumento de modelagem moral, e não somente corpo doutrinário, marca de uma formação intelectual que acompanharia o engenheiro-pensador por toda sua curta vida.

Vicente Licínio formou-se como engenheiro civil em 1912, e como engenheiro geógrafo em 1916. Logo após sua primeira colação, a Congregação da Politécnica concedeu-lhe um prêmio pelo seu bom aproveitamento acadêmico, oferecendo-lhe uma viagem de estudos ao exterior. Vicente Licínio optou por uma viagem em 1916 aos Estados Unidos, em cuja capital Washington realizar-se-ia, naquele ano, o Congresso Científico Pan-Americano. O relatório dessa viagem foi apresentado à Congregação em 1916 e posteriormente publicado na reedição da primeira grande obra do autor, Filosofia da Arte, publicada originalmente em 1918 e relançada em 1935, pela José Olympio.
A publicação desta obra marca o final da primeira fase da vida do autor, marcada pela sua formação universitária, pelos seus trabalhos profissionais no campo da engenharia e arquitetura e por seu contato com a sociedade norte-americana, que lhe deixara profundas impressões. A segunda fase iniciar-se-ia com a viagem ao rio São Francisco, realizada em 1921, estendendo-se pela primeira metade da década de 1920 até 1926, quando publicou parte significativa de sua obra ensaística. A terceira e última fase corresponde ao período de maior engajamento com a causa da educação pública, atividade interrompida com sua morte trágica, em 1931.
Sua carreira profissional foi instável, oscilando entre os projetos de arquitetura que realizava e as eventuais funções públicas que exercia, sempre por curtos períodos de tempo. Permaneceu como engenheiro da prefeitura do Distrito Federal por apenas nove dias em 1913, e ocupou por seis meses a prefeitura da cidade de São Gonçalo em 1916, atividade que infelizmente foi pouco investigada pelos seus biógrafos e comentadores. Também foi subdiretor técnico na diretoria de Instrução do Distrito Federal em 1928, função para a qual foi convidado por Fernando de Azevedo, tendo permanecido no cargo entre fevereiro e maio.
Os seus rendimentos regulares provinham do escritório de arquitetura e construção civil operado entre os anos de 1913 e 1921, período durante o qual realizou esparsos projetos, entre os quais se podem citar os de um hotel balneário em Ipanema (1915), um edifício para o grupo escolar de São Gonçalo (1916) e um projeto dos Armazéns da C.N.N. Costeira (1916), um projeto completo de Vila Operária para 232 casas (1921), dentre outros. Alguns desses projetos eram realizados pela firma de engenharia e construção Mendes de Moraes & Cardoso, da qual era sócio. Sua carreira de arquiteto encerrou-se, na prática, com o projeto para o Palácio da Justiça no Rio de Janeiro em 1921, apresentado em concurso público e recusado. Vicente Licínio considerou o resultado injusto e decidiu se retirar desse ramo profissional.
Como se percebe, foi constante em sua vida o sentimento de inadequação aos procedimentos cotidianos do mercado profissional e da administração pública. Esse aspecto da modelagem moral de Vicente Licínio associava-se a uma perspectiva missionária da atividade pública, que iria lhe acarretar problemas quando de seu engajamento nas campanhas educacionais que marcavam a cena política dos anos 1920.
Este engajamento iniciou-se de forma mais decidida na segunda metade daquela década. Em 1924, fora sócio-fundador da Associação Brasileira de Educação, entidade civil que reunira intelectuais interessados em divulgar a causa educacional como grande solução para os problemas enfrentados pelo Brasil como nação. Além de Vicente Licínio, outros engenheiros estiveram na vanguarda desse processo, entre os quais Ferdinando Laboriau e Amoroso Costa, também politécnicos. Essa presença dos engenheiros marcou de forma decisiva a própria concepção educacional gestada nos primórdios da ABE. Como argumentou Marta Chagas de Carvalho (Carvalho, 1998), a visão da “salvação pela educação” desse grupo comportava uma forte dimensão disciplinadora e higienista, orientada para a modelagem autoritária de sujeitos “cívicos”.
Vicente Licínio partilhava essa crença, embora articulasse sua visão a partir de uma forte convicção republicana. Afinal, sustentava que a educação poderia republicanizar de fato o país, produzindo uma vida social menos amorfa e mais coesa. Na sua perspectiva, a disseminação da instrução poderia remodelar o ambiente brasileiro, inserindo o Brasil no mundo moderno da máquina e da técnica industrial. Isto é, a sua visão “racionalizadora”, que dava grande importância ao papel das elites na condução dessa modelagem pedagógica, combinava-se a um programa político republicano. Como atesta Marlos da Rocha (Rocha, 2005), essa segunda dimensão também é fundamental para compreender o sentido da adesão de Vicente Licínio à causa educacional.
Em 1928, no contexto de constantes enfrentamentos entre os grupos que compunham a instituição, Vicente Licínio, atendendo a convite de Amoroso Costa, assumiu a presidência da ABE. Durante seu mandato, a Associação realizou a Segunda Conferência Nacional de Educação, em Belo Horizonte. Nessa ocasião, Vicente Licínio defendeu a necessidade de realização de uma grande cruzada educacional pelo país, com o intuito de divulgar a causa e nacionalizar a associação. Também organizou um inquérito coletivo sobre o ensino superior brasileiro, publicado em 1929 no livro O Problema Universitário Brasileiro.
Em dezembro de 1928, um acidente de avião matou Amoroso Costa e Laboriau, dois grandes companheiros de Vicente Licínio, fato que o marcou profundamente e o levou a engajar-se de forma mais decidida no que chamava de “raids educacionais”. Os raids eram viagens a diferentes estados brasileiros nas quais defendia a causa educacional em conferências e debates. Realizou o primeiro destes raids no Sul, em companhia de seu grande amigo Inácio Azevedo Amaral. Em seguida, iria sozinho ao Nordeste.
O ativismo de Vicente Licínio e sua proposta de nacionalização da ABE produziram atritos com outros grupos dentro da associação, em especial com os que preferiam uma concentração maior de esforços no Distrito Federal. Esses atritos levaram ao rompimento, e em 1929 Vicente Licínio organizou a Federação Nacional das Sociedades de Educação, tentativa de construir um órgão mais federativo e nacional, capaz de impulsionar a causa educacional.
A educação, porém, não era a única atividade que apaixonava Vicente Licínio. A carreira acadêmica também o atraía. Em 1927, foi aprovado em concurso para a Escola Politécnica, ocupando a cadeira de arquitetura civil-higiene dos edifícios-saneamento das cidades. No seu discurso de posse, enfatizou o papel da formação politécnica na constituição de novos cidadãos, já que os engenheiros dessa escola seria supostamente menos propensos ao bacharelismo e mais aptos a pensar a construção da nação brasileira. Como se vê, a engenharia para Vicente Licínio nunca foi propriamente uma vocação profissional, mas antes uma forma de inscrição no mundo marcada por um ethos positivista, que propiciaria as ferramentas intelectuais para formas mais enérgicas de intervenção intelectual na vida pública.
Foi também em meados da década de 1920 que Vicente Licínio produziu a maior parte de sua obra, composta de livros que reuniam artigos, ensaios e conferências. Destoa deste formato justamente o primeiro, Filosofia da Arte (Cardoso, 1918), composto de um alentado ensaio sobre a interpretação positivista do fenômeno estético, ao qual seriam posteriormente acrescentados os estudos arquitetônicos realizados nos Estados Unidos por ocasião de sua viagem em 1916. O ensaio fora originalmente apresentado como tese para um concurso de provimento da cadeira de história da arte, na Escola Nacional de Belas Artes, em 1917, para o qual escrevera o “Prefácio à Filosofia da Arte” (o concurso terminou sendo anulado, em mais um episódio de frustração profissional de Vicente Licínio).
A hipótese que guiava o autor era simples: a arte seria função do desenvolvimento dos organismos sociais, e pelo estudo estético seria possível decifrar a voz da evolução dos povos. Vicente Licínio analisava então a evolução geral das obras de arte, do imaginário ao real, do simbólico ao positivo, da emoção ao raciocínio, associando essa evolução à própria transformação material das condições de produção artística. Como se vê, o estudo seguia o cânone positivista, constituindo-se num dos exemplos mais refinados do uso desse instrumental teórico para o estudo estético. O crítico Wilson Martins (Martins, 1978) considerou esse texto uma das mais sofisticadas tentativas de utilizar a filosofia comteana para analisar o fenômeno estético. Um dos biógrafos de Vicente Licínio, Sydney M.G dos Santos, dedicou parte significativa do seu O legado de Vicente Licínio Cardoso (Santos, 1975) ) à exposição dos argumentos desta obra.
O tema da relação entre homem e meio era peça fundamental no estudo sobre arquitetura norte-americana, incluído no livro posteriormente, provavelmente por conta de sua afinidade com o tema estético. Neste estudo, Licínio Cardoso investigava o fenômeno dos arranha-céus – ou os skycrapers, como preferia denominar – relacionando-os ao ambiente social daquele país. Segundo ele, a organização democrática e racional do trabalho nos Estados Unidos se traduziria numa construção funcional, propensa aos novos espaços da atividade produtiva. Também se interessou pela arquitetura do Oeste americano, associando sua dimensão horizontal à própria dinâmica aberta do espaço físico vasto daquela região. Nesse registro, relacionava democracia ao funcionalismo e à racionalidade da vida moderna, concepção peculiar que não necessariamente abrigava uma visão forte do tema da igualdade. O espaço nunca deixaria de ser uma das grandes chaves analíticas empregadas pelo autor para o estudo dos mais diversos fenômenos.
Na década de 1920, os esforços literários de Vicente Licínio foram redobrados. Em 1921, vale lembrar, afastara-se das atividades de engenheiro e arquiteto, e isso parece o ter motivado ainda mais para a tarefa de pensar o Brasil. Em 1924 foram lançados Pensamentos brasileiros, Figuras e conceitos e Vultos e idéias, e em 1925 Afirmações e comentários. Mesmo os livros editados postumamente, como À margem da História do Brasil (1933), Maracás (1934) e Pensamentos americanos (1937), também foram compostos, em grande medida, por textos escritos em meados da década de 1920.
Além disso, ainda no ano de 1924 surgiu À margem da história da República, famoso livro coletivo organizado pelo próprio Vicente Licínio, que assinou seu prefácio. Este livro reunia artigos de Oliveira Vianna, Pontes de Miranda, Tristão de Athayde e demais autores que viriam a ser identificados como a geração de “republicanos críticos”. Essa geração era marcada pelo desencanto com a experiência liberal da Constituição de 1891, tida como inadequada à configuração histórica da sociedade brasileira. No prefácio, Vicente Licínio citava Augusto Comte, Herbert Spencer e Charles Darwin como inspiradores teóricos, e Alberto Torres como pai espiritual de todos. Além do prefácio, o organizador também comparecia com um ensaio longo sobre Benjamin Constant, herói do positivismo brasileiro. Este livro foi fundamental para consolidar o caldo intelectual antiliberal que grassava na década de 1920.
O gosto de Vicente Licínio por perfis de grandes vultos pode ser atestado também nos outros livros citados, estes contemplando apenas artigos e ensaios de sua autoria. Há perfis de Euclides da Cunha, Dostoievsky, José Rodó, Domingos Sarmiento e George Washington, todos eles heróis intelectuais e políticos do autor. Além disso, há estudos breves sobre temas econômicos e geográficos, com títulos como “Da Liberalidade da Técnica Alemã”, “À Margem da Siderurgia” e “Máquinas e Sociedades (esboço de uma síntese)”. Como o leitor contemporâneo pode se localizar no meio de tamanha diversidade de interesses e temas?
É preciso inicialmente compreender o sentido do positivismo do autor. Esta doutrina lhe forneceu a chave analítica da relação entre homem e meio, que perpassa boa parte desses escritos, oscilando entre uma argumentação de cunho geográfica e explicações próprias de uma sociologia econômica e materialista – este último aspecto é especialmente visível nos textos dedicados aos efeitos das novas máquinas modernas sobre a vida social. Ao mesmo tempo, o positivismo produziu uma identificação do autor com personalidades políticas e intelectuais marcadas por forte senso moral e dinamismo. Vicente Licínio acreditava que tanto Dostoievsky quanto Washington seriam heróis de um mundo moderno, marcado pelas descobertas da ciência e da técnica e pela exigência de personalidades ativas, distantes do modelo de velho intelectualismo desfibrado dos europeus. É nesse registro que também se inscreve o americanismo do autor, tema constante de seus escritos.
Americanismo para Vicente Licínio era o equivalente de terra nova, pensada em oposição ao Velho Mundo. O seu americanismo, portanto, não se confundia com a simples admiração pelos valores liberais anglo-saxões, como era usual com outros intelectuais brasileiros, mas se pautava pela identificação de uma qualidade continental comum. Ao contrário do “europeísmo”, cultura intelectual supostamente artificial, retórica e pouco afeita ao mundo moderno, o americanismo seria a expressão de sociedades novas, vigorosas e marcadas pela dimensão prática de seus homens. Essa visão permitia a Vicente Licínio admirar figuras tão díspares quanto Henry Ford e José Enrique Rodó, este um esteta uruguaio desconfiado da civilização material norte-americana e entusiasta da filiação latina dos povos da América do Sul.
Note-se, portanto, que esse americanismo não se ajusta facilmente ao figurino do liberalismo, relacionando-se mais ao universo do trabalho produtivo moderno, assentado na experiência da máquina e da especialização. Nesse registro, o europeísmo e seu desprezo pela civilização materialista seriam seu perfeito contraponto. Compreende-se assim o sentido da eslavofilia do autor, em especial sua admiração incontida por Dostoievsky, objeto de um longo ensaio em três partes (Cardoso, 1924a).
Ao seu modo, o escritor russo representaria também um espírito moderno avesso ao europeísmo, pois sua prosa torturada e caudalosa traduziria uma personalidade vigorosa, verdadeira e intensa, pouco afeita aos requintes formais da prosa francesa, por exemplo. Essa expressividade pura e sincera estaria próxima da economia moral que marcaria os tipos americanos, também estes afeitos a uma vivência prática e real, e, portanto, distantes da modelagem artificial e tradicional dos intelectuais europeus. Além disso, Vicente Licínio via a própria Rússia como uma sociedade que, de certa forma, guardava similaridades com o caso brasileiro. Essa comparação é feita pelo autor no ensaio “O ambiente do romance russo” (Cardoso, 1924a), em que introduz uma sociologia histórica para dar conta de duas nações cujos processos de formação nacional e consolidação seriam ainda recentes. No texto, Vicente Licínio argumenta que Brasil e Rússia seriam sociedades vastas e fragmentadas, originalmente expostas a fortes influências estrangeiras, nas quais a vida urbana surgiria de forma precária e artificial. Além disso, ambos os países ainda se veriam às voltas com os traumas causados pela desorganização do trabalho compulsório. Entretanto, Brasil e Rússia também partilhariam vantagens, pois suas energias sociais seriam novas e potentes, cabendo às respectivas elites desses países a tarefa de domar e regular esse caótico reservatório de raças e gentes diversas.
Porém, a aproximação entre Brasil e Rússia feita por Vicente Licínio só faz sentido se introduzirmos o terceiro eixo analítico que organiza seus diversos ensaios, e que se combina com o positivismo e o americanismo para produzir um registro singular no universo do pensamento social brasileiro. Refiro-me à centralidade da “terra” como modo de cognição da vida social. A princípio, reiterar o papel conformador do espaço na análise social parece indicar um forte apego ao determinismo geográfico, derivação conhecida de certas formulações de cunho positivista. De fato, há escritos de Vicente Licínio em que esse determinismo se faz notar, como nas análises da arquitetura norte-americana. Mas a terra é mais do que simples princípio estrito de causalidade, constituindo-se antes numa forma de imaginação social típica de sociedades periféricas. Vejamos.
Vicente Licínio emprega a expressão “força da terra” para dar conta de sociedades novas, em que as energias sociais ainda não foram totalmente reguladas, indicando assim uma nacionalidade “em formação”, não plenamente constituída. Isto é, a “força da terra” traduziria tanto o peso da vastidão territorial na organização social de Brasil e Rússia, quanto uma qualidade civilizatória comum, que afastaria essas sociedades das nações européias, já estabelecidas de longo prazo. Numa conferência dirigida ao Grêmio Euclides da Cunha sobre o escritor de Os Sertões, surge novamente essa expressão, atestando exatamente essa dimensão civilizatória própria de nações ainda em gestação, que entrariam na modernidade a partir de caminhos singulares. Diz Vicente Licínio:

Criaram os russos durante a sua evolução social e histórica do século passado uma expressão admirável – força da terra – que nenhum povo poderá compreender com mais justeza do que o nosso, nacionalidade em ser que somos ainda na trajetória imponente da vida das nações habitantes do planeta. Força da terra... energia criadora sem consciência definida, força esboçada sem direção orientada, energia inconsciente da raça em formação caótica, força emergente da própria terra em procura da consciência sábia de seus guias mentais, de seus diretores sociais, dos obreiros robustos da nacionalidade incipiente (Cardoso, 1924b, 111)

O argumento da terra também surge articulado ao tema do americanismo. Como foi dito, este conceito refere-se à “terra nova”. Assim, a expressão “força da terra” associa-se ao poder renovador exercido pelo espaço sobre as mentalidades européias. É o caso do ensaio “À Margem do 7 de Setembro”, em que Vicente Licínio emprega a expressão para dar conta da renovação produzida pela terra nova americana sobre os portugueses. Ao escrever sobre José Bonifácio e D. João VI, diz que “(...) a nova terra, o novo meio, despertou e orientou energias novas em homens velhos, transplantados sem o quererem, em conseqüência da fuga com que responderam à audácia de Napoleão” (Cardoso, 1924 b, 213). Esta qualidade de revigoramento encontra-se na sua forma mais pura no caso norte-americano, em que Vicente Licínio vê um exemplo de “democratização pela terra”, caracterizado pelo trabalho livre, pela pequena propriedade e pelo despertar de energias novas num território vasto e aberto.
Vê-se, portanto, que a terra opera como categoria de ligação entre diversos temas de Licínio, e compõe uma geografia civilizatória em que Brasil, Rússia e América partilhariam a possibilidade de uma entrada singular e nova no mundo moderno. Mas terra e modernidade não seriam categorias antitéticas? Não estaria Vicente Licínio formulando uma interpretação agrarista? A persistência de temas do mundo industrial moderno em seus ensaios nos informa que não. Afinal, não pode ser agrarista um pensador que escreve um alentado texto sobre Henry Ford, herói do mundo material que se afirmava nos Estados Unidos.
Em “Ford: um Operário contra o Capital” (Cardoso, 1925), Vicente Licínio tece vigorosos elogios ao fordismo, interpretando-o como modelo de organização democrática. Enquanto o europeísmo seria ideologia própria de sociedades velhas e cansadas, refratárias às novas energias despertadas pela máquina, o fordismo representaria a possibilidade de uma vida mais prática e orgânica, ajustada aos novos tempos. Nos termos do próprio autor,

O idealismo dos versos opulentos de Whitman e da prosa harmoniosa de Emerson surge transfigurado de chofre, inopinadamente, na oficina de Ford. A era mecanizante que tanto amedrontara o espírito europeu de Carlyle começa a oferecer perspectivas luminosamente esperançosas e, mais ainda do que aquelas proféticas e pragmáticas a máquina americana afirma de fato que a humanidade está dividida por dois ideais extremamente diversos (id, ibid, p.132)

Percebe-se, nessa passagem, o entusiasmo pela racionalização produzida pela vida industrial, aspecto da modernidade que Vicente Licínio consideraria decisivo para seu projeto educacional. Em outro ensaio, este escrito em 1920 e intitulado “Máquinas e Sociedades (Esboço de uma Síntese)” (Cardoso, 1924c), o autor afirma com mais veemência seu credo modernista. Ao fazer o elogio da máquina, transfigura-a em símbolo de uma nova ordem social, mais aberta e igualitária. Segundo o próprio,

A máquina redime o homem. Escraviza o operário ao capital, ainda hoje, mas depois de o haver libertado do jugo da nobreza secular. Nivela a nobreza ao povo, mas abre o caminho da vida a audácia dos capazes. Ela cria direitos novos, implanta liberdades inéditas. Dirige de fato o operário moderno, preso às suas engrenagens complexas, mas empresta-lhes forças novas, fazendo com que se internacionalize, pugnando por direitos comuns dentro de nações, de povos e de raças diferentes (Cardoso, 1924c, p.244)

O tema da máquina na obra de Vicente Licínio é tanto indicador de uma nova forma de sociabilidade, como expressão de uma nova geografia civilizatória, em que pontificariam as nações “novas”. Em um ensaio intitulado “À Margem da Siderurgia” (Cardoso, 1924c), afirma que o Brasil só encontraria o caminho do desenvolvimento se enfrentasse a questão das novas fontes de energia. Afinal, as velhas sociedades industriais estariam se esgotando no consumo do combustível mineral, o que abria possibilidades de crescimento para forças novas da Humanidade. Entre elas estaria o Brasil, uma nação que, por ainda estar “inacabada”, teria a chance de se inventar de maneira criativa. No registro do autor, “Sem o ser ainda, caminhos evidentemente presos a uma nacionalidade nova (...) uma componente nova entre as forças cansadas da humanidade” (Cardoso, 1924c, p.213).
A despeito de o Brasil ter condições de adentrar esse mundo novo de forma criativa, esse processo não se faria naturalmente. A educação pública, obsessão liciniana ao longo de boa parte de sua trajetória, seria o instrumento necessário para modelar os novos homens capazes de conduzirem essa transformação. Entende-se, portanto, a concepção fordista que Vicente Licínio alimentava a respeito da pedagogia moderna, vista como ferramenta de construção de uma atitude mental republicana e pragmática. Compreende-se, também, as armadilhas presentes nessa concepção, que resvalavam em uma visão autoritária sobre o papel das novas elites na condução da nação e na organização da consciência de nacionalidade que emergia no país.
Da terra à máquina, da América a Rússia, de Ford a Dostoievsky, completa-se a longa trajetória dessa singular forma de imaginação social, que reconhecia a natureza periférica da inscrição do Brasil no mundo e a convertia em potência criadora. Ao empreender esse movimento, Vicente Licínio filia-se a uma longa tradição de interpretações do Brasil de diferentes colorações políticas, do conservadorismo modernizante de Oliveira Vianna à utopia tropical e revolucionária de Darcy Ribeiro. Em todas essas fabulações, a condição periférica traduzia-se tanto em lugar de discurso crítico sobre o moderno, quanto em elemento de mediação que obrigava o pensamento a “torcer” a produção teórica central. Assim, enquanto a reflexão sobre o espaço na imaginação européia traduzia uma visão estática das origens e das tradições daquelas nações, no caso brasileiro analisado por Vicente Licínio a terra associava-se à invenção. Mais do que simples base territorial da nação, a terra seria uma potência ainda desconhecida.
Não pôde o autor avaliar o possível encontro de suas fabulações com o movimento da História brasileira. A Revolução de 30, evento que abriu as portas para um novo momento de invenção republicana, só tinha um ano de existência quando Vicente Licínio suicidou-se em 10 de junho de 1931, sete meses após ter feito uma primeira tentativa. A depressão que o afetava desde muito não foi suficiente para corroer sua modelagem positivista, característica de um intelectual missionário em conflito com um mundo que resistia à invenção. Nas suas últimas palavras escritas, direcionadas ao cunhado Luís Castilho Goycochea, escreveu:

O suicídio entre nós é muitas vezes uma fuga à vida conseqüente e um ato mal praticado. De nenhum modo meu caso, cujos exemplos serão os da antiguidade greco-romana ou os do Japão moderno. É um ato de razão de quem domina a vida em respeito à dignidade da própria vida vivida (Cardoso, carta de suicídio, 1931, p.1: arquivo particular).

BIBLIOGRAFIA
CARDOSO, V.L. Filosofia da Arte.
______. “Dostoievski”. In Vultos e Idéias. Rio de Janeiro, Annuario do Brasil, 1924a.
______. “O Ambiente do romance russo”. Id.
______. “À Margem do 7 de Setembro”. In Figuras e Conceitos. Rio de Janeiro, Annuario do Brasil, 1924b
______. “Euclydes da Cunha”. Id.
______. “Máquinas e Sociedade (Esboço de uma Síntese). In Pensamentos Brasileiros. Rio de Janeiro, Annuario do Brasil, 1924c
______. “À Margem da Siderurgia”. Id.
______. “Ford: o operário que venceu o capital”. In Affirmações e Comentários. Rio de Janeiro, Annuario do Brasil, 1925.

CARVALHO, M.M.C. de. Molde nacional e fôrma cívica: higiene, moral e trabalho no projeto da Associação Brasileira de Educação (1924-1931). Bragança Paulista, EDUSP, 1998.
MARTINS, W. História da Inteligência Brasileira (1915-1933). Vol VI. São Paulo, EDUSP/Cultrix, 1978.
ROCHA, M.M. B.Da. Matrizes da modernidade republicana – cultura política e pensamento educacional no Brasil. Campinhas, Ed. Associados; Brasília, Plano Piloto, 2004.
SANTOS, S.M.G. Dos. O legado de Vicente Licínio Cardoso. Rio de Janeiro, Ed UFRJ, 1975.

FONTE PRIMÁRIA
Arquivo particular Vicente Licínio Cardoso
Carta de 07-06-1931, endereçada a Castilhos Goycochea.

Autor da biografia:
João Marcelo Ehlert Maia
Graduado em Ciências Sociais pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (1999), fez o mestrado (2001) e o doutorado (2006) no Instituto Universitário de Pesquisas do Rio de Janeiro - IUPERJ, Professor adjunto do CPDOC/FGV-RJ desde 2008, publicou, entre outros textos, o livro A terra como invenção: o espaço no pensamento social brasileiro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2008

Participação de Cardoso, Vicente Licinio na coleção Brasiliana

À margem da História do Brasil

À margem da História do Brasil

Volume: 13

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